Com a segunda reunião realizada ontem, 10/10, às 19h, na sede do Sindicato dos Farmacêuticos do Estado de Minas Gerais (Sinfarmig), o Núcleo sobre Medicalização de BH e Região Metropolitana vai contribuindo para a articulação do debate entre profissionais e segmentos interessados no assunto. O Núcleo, idealizado pelas comissões de saúde e de educação do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais (CRP-MG), foi criado em agosto deste ano. Na reunião de ontem, o Sinfarmig esteve representado pelos diretores Waldirce Inêz de Souze e Rilke Novato Públio.

Para comemorar a consolidação do Núcleo, o Sinfarmig entrevistou a professora Beatriz de Paula Souza, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) também integrante do Grupo Interinstitucional de Queixa Escolar (Giqe) do IP-USP e membro da executiva do Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade.

Diante da fragilidade dos laudos que chegam ao conhecimento da professora há uma década e meia e que indicam a medicação de crianças diagnosticadas com o Transtorno do Déficit de Atenção - com ou sem Hiperatividade e com outro, a dislexia, associada à dificuldade de algumas crianças criarem habilidade de leitura, ela decreta: “para mim, esses dois distúrbios não existem”. Os diagnósticos das duas ‘doenças’ vêm permitindo a expansão acelerada da prescrição do metilfenidato (Ritalina) para crianças e jovens no Brasil.              

Segundo Beatriz, que estuda o assunto há mais de 15 anos, o aparecimento dos núcleos sobre medicalização da educação e da sociedade representa a capilarização do movimento surgido com o Fórum porque permite que questões locais e regionais sejam abordadas. Por meio dos núcleos, ela afirma, é possível que as regiões sejam sensibilizadas para enfrentar facetas da medicalização identificadas na localidade. 

Para a pesquisadora, os avanços na discussão do tema já podem ser percebidos, da criação do Fórum, em 2010, para cá. “Quando a luta contra a medicalização começou, uma das primeiras iniciativas foi buscar espaço na mídia para falar sobre o assunto, isso era impossível. Hoje já existe massa de divulgação na mídia seja de forma contestatória ou que divulga a polêmica”, diz Beatriz. Como fenômeno geral, a professora acrescenta, percebe-se que o assunto tornou-se inevitável e rende pauta.

Conceito

Por medicalização, a pesquisadora sugere a definição do livro “Medicalização de Crianças e Adolescentes” (Editora Casa do Psicólogo/2010): “Nomeamos como medicalização ao processo de conferir aparência de problema de saúde a questões de outra natureza quanto de natureza social. Não se restringe ao âmbito da medicina e dos tratamentos medicamentosos, mas diz respeito também ao campo de outros profissionais de saúde como psicólogos e fonoaudiólogos. O termo psicopatologização tem sido usado com significação semelhante”.

Mas por que a tendência de conferir aparência de problema de saúde a problemas de natureza diferente passou a ser tão forte e prejudicial à sociedade que demandou a criação de um movimento nacional? Primeiro, ela diz, devido ao fator financeiro que movimenta a indústria farmacêutica e a estimula na indução da idéia de uma patologização crescente da sociedade. Mas, além de tornar a indústria mais robusta, a tendência de apontar adoecimento na sociedade e na educação, lembra a professora, também gera mercado de trabalho para muitos profissionais.

Há pontos objetivos ligados à medicalização, mas há outro mais sutil, que é político e, conforme Beatriz, representa a possibilidade de controle social conservador. “Essa estratégia desautoriza qualquer tipo de sentido de comportamentos contestáveis. Por isso, as crianças, por exemplo, são controladas por diagnóstico ou quimicamente”, afirma, enfatizando que o Brasil é o segundo país do mundo em consumo do metilfenidato (os Estados Unidos são o primeiro) que entre nós é conhecido pelo nome comercial de Ritalina.

Pela experiência no Serviço de Orientação à Queixa Escolar da USP, a psicóloga está certa de que as indicações de medicar crianças e jovens diagnosticados o Transtorno do Déficit de Atenção, com ou sem Hiperatividade e a dislexia: suposto distúrbio que afeta a habilidade da leitura escrita – são inteiramente contraindicados. Isso, porque, conforme a psicóloga, o comportamento das crianças não pode ser considerado em separado do ambiente que frequentam, seja escolar, familiar ou social.

“Em 100% dos laudos a que tive acesso, em nenhum deles houve essa investigação do ambiente escolar. No máximo, haviam dados de como ela se apresentava naquele ambiente”, conta. Segundo ela, é preciso lembrar que são sabidos os muitos problemas. “Se a criança não presta atenção, pode ser que o sistema de ensino não esteja sendo adequado a ela e não somente a ela. Essas condições precisam ser olhadas” – reforça, observando que os laudos para os distúrbios citados sequer mencionam investigações sobre o ambiente familiar.  “De modo que a minha tendência (como profissional) é concordar que esses distúrbios não existem”, completa.

Nos casos supervisionados pelo Instituto de Psicologia da USP, conta a professora, fica clara a tendência de as escolas se decidirem pela linha biologicista (medicamentosa) – “vejo a instalação de certo pensamento no ambiente escolar e fora dele também” – arremata, lembrando que há resistências tanto na escola quanto na sociedade, simbolizadas pelo Fórum e núcleos contra a medicalização.

 

O Ministério da Saúde quer expandir o número de mesas de negociação do Sistema Único de Saúde (SUS) das atuais 62 para pelo menos 200 daqui a cinco anos. Minas Gerais conta atualmente com seis mesas, sendo uma do Governo do estado e as demais de municípios. A informação é da diretora de Gestão e Regulação do Trabalho e Saúde do Ministério, Ana Paula Cerca.

A diretora participou, durante esta semana, em Belo Horizonte, do Curso de Negociação Coletiva e Gestão do Trabalho na Saúde promovido pelo Ministério da Saúde em parceria com a Organização Panamericana da Saúde (Opas) e Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). O objetivo do curso, de uma semana e carga horária de oito horas diárias, é capacitar gestores e trabalhadores da Saúde - o treinamento está sendo realizado em todos os estados.

Segundo Ana Paula, o principal objetivo das mesas de negociação é melhorar as condições de trabalho no SUS. O Sistema conta hoje com aproximadamente quatro milhões de trabalhadores, sendo que no serviço direto à população, são cerca de dois milhões. Com a expansão do número de mesas de negociação, o Ministério espera ser possível estruturar as áreas de gestão de trabalho do SUS, assim como avançar na instalação de planos de carreira e na promoção da saúde dos trabalhadores.

Embora o SUS comemore 25 anos neste mês, a Mesa Nacional de Negociação do Sistema conta com apenas dez anos de existência, mesmo tempo de criação da Secretaria de Gestão do Trabalho e Educação na Saúde. “É uma área nova que tem apoio técnico e recursos financeiros para que o tema gestão do trabalho passe a ser prioritário na agenda”, diz a diretora. Ana Paula ressalta que o Ministério quer consolidar a negociação como metodologia de gestão na saúde.

Esforço concentrado

O curso do qual os gestores e trabalhadores mineiros da saúde participam em Belo Horizonte faz parte de um esforço concentrado da secretaria de Gestão do Trabalho que começou há dois anos. De lá para cá, o número de mesa de negociações aumentou em dez unidades – passando de 52 para 62. “Queremos que os municípios entrem em contato com o Ministério da Saúde que está oferecendo qualificação e apoio para instalação e funcionamento das mesas”, afirma Ana Paula, informando o endereço de contato na internet: www.saude.gov.br/mesa.

Conforme a diretora,é preciso que haja ética e legitimidade para a criação das instâncias de negociação. “Quem está na mesa tem que ter poder de decisão”, frisa, acrescentando também a paridade no número dos representantes das partes como outro item de relevância. A participação do Dieese na qualificação dos gestores é enfatizada pela diretora. De acordo com Ana Paula, a entidade é importante na articulação com os sindicatos de trabalhadores, que têm importante papel nas negociações entre gestores e trabalhadores da saúde pública.

Diretoras do Sinfarmig participam

Como componente da Mesa Estadual Permanente de Negociação do SUS, representando o SINFARMIG, a diretora Júnia Vieira Lelis diz estar tendo a  oportunidade de aprender um pouco mais sobre as negociações coletivas no setor público no curso. “Elas devem obedecer às orientações da política de democratização das relações de trabalho e desprecarização do trabalho”, informa

Para Júnia, a oportunidade é decisiva para as futuras negociações porque os representantes dos trabalhadores que estão tendo a oportunidade de fazer o curso ministrado pelo DIEESE serão capazes de qualificar seus debates, melhorar as estratégias de enfrentamento e fortalecer o processo de negociação coletiva no SUS.

Também diretora do Sinfarmig, Christianne Jacome, farmacêutica da Secretaria de Saúde de Contagem, destacou: “Esses conhecimentos são fundamentais neste momento em que estamos criando a Mesa de Negociações do SUS de Contagem.” Christianne salienta que a participação do Sindicato na mesa de negociações permite encaminhar assuntos e responsabilidades de interesse dos farmacêuticos em função pública.

Entidade que luta, desde sua fundação, pela promoção da Saúde e pelo uso racional de medicamentos, a Federação Nacional dos Farmacêuticos (Fenafar) apoia integralmente as iniciativas em favor da reforma da lei de propriedade industrial em vigor, que é desfavorável à saúde pública.


Entendemos que a atual lei de patentes só favorece a dominação internacional sobre a produção de fármacos no Brasil, colocando o país à mercê das multinacionais e ignorando o direito fundamental à saúde.


Com a aprovação da Lei das Patentes, o país passou a reconhecer patentes publicadas em outros países sem análise técnica prévia e sem avaliação e autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) por um estatuto conhecido como patentes pipeline.


O mecanismo pipeline, ao invés de fomentar o desenvolvimento do país e servir ao interesse público, serve de barreira ao acesso universal e gratuito a tratamentos para pessoas com HIV/AIDS. Para a Fenafar, o reconhecimento dessas patentes estão em desacordo com a Constituição Brasileira e são um atentado aos interesses nacionais.


"É necessário que o Legislativo atue para ampliar os direitos sociais na área de patentes, de modo a facilitar o acesso aos medicamentos", defende o presidente da Fenafar, Ronald Ferreira dos Santos.


A Fenafar tem entre suas resoluções a determinação de promover e incentivar o debate sobre a revisão da Lei de Propriedade Industrial, fortalecendo a soberania nacional e o acesso a medicamentos pela população. Isso, além de trabalhar pela revogação dos artigos que criaram o mecanismo das patentes pipeline.


Por isso nos unimos às entidades e organismos nessa importante luta em defesa da saúde e da soberania nacional, e pelo acesso a medicamentos no Brasil.

FENAFAR - Federação Nacional dos Farmacêuticos
Reproduzido em 09/10/2013 do site da entidade

Médico preenche sem fazer consulta e cobra R$ 30.

Receitas para antidepressivos e emagrecedores são vendidas a R$ 50.

Do G1 MG, com informações do Bom Dia Brasil / 07/10

Receitas médicas são vendidas na Praça Sete, no Centro de Belo Horizonte, sem o menor problema. As negociações são feitas abertamente. Uma pessoa disse à produção do Bom Dia Brasil. “O cara vai te vender baratinho, receita branca normal”. Vender receita médica ou dar atestado para que não tem problema de saúde é crime, e quem compra está cometendo uma irregularidade.

Uma mulher leva o produtor até um rapaz, em uma sala comercial. “R$ 30 te faço ela, carimbada e tudo”, afirma o homem.
Ele diz que a receita é original e tranquiliza: “Cansei de me passar receita. Não tem nada a ver não. Pode ficar despreocupado”, diz.

Durante a abordagem descobrimos que, por uma quantia a mais, é possível comprar também atestados médicos.

Produtor: E quanto que é? O mesmo preço?
Vendedor: Depende dos dias, né. Um dia é R$ 30, dois dias é R$ 40. Se pegar atestado de oito dias aí é R$ 10, R$ 12 reais o dia. Muito mais em conta.

Com a receita branca, carimbada com o nome e o número de registro do médico, é possível comprar qualquer medicamento de tarja vermelha, como antibióticos.
Para alguns ansiolíticos, antidepressivos e emagrecedores, é preciso uma receita especial, de cor azul. Na Praça Sete, isso não é problema. “Ela é mais cara. É R$ 50”, afirma o vendedor.

E só sob encomenda. Voltamos para pegar a receita e o vendedor deu todas as orientações. “Vem medicamento ou substância tal, vem quantidade tal, é dose por posologia, então, só o cara que vai saber, não tem como dar errado, não”, explica.

Quem não quer se arriscar pelas ruas da capital consegue comprar receitas também em
consultório médico. No primeiro contato da nossa produção por telefone, conversamos com o secretário e pedimos receita para um ansiolítico. Ele informa que não precisa de consulta médica, apenas pagar pelo formulário. “Tem que pagar só a receita. Só R$ 30”.
E ele não economiza na oferta.

Vendedor: Quantas caixas?

Produtor: Ah, pode ser duas já de uma vez?

Vendedor: Pode ser duas, pode ser três.

Produtor: Mas, eu tomo uma vez ao dia só!
Vendedor: É, mas a gente põe duas vezes ao dia só para você comprar as três.

No consultório, o próprio médico Pedro Márcio Chaves recebe o nosso produtor e preenche a receita para uma mulher. Sem nenhum tipo de consulta ou exame, ele prescreve o calmante tarja preta de uso controlado.

Mulher: Toma é à noite, né?

Médico: É. Para ela seria melhor à noite. Vamos botar à noite, três caixas.

“Isso é uma infração ética, prevista no código de ética e passível de punição. Tem uma censura confidencial, censura pública e a suspensão do registro profissional até 30 dias. Então essas são as penas que os médicos podem estar sujeitos”, afirma o presidente do CRM, Itagiba de Castro Filho.

Voltamos ao consultório do médico Pedro Márcio e ele negou a venda de receitas. “Eu, vendendo? Tem não. Não vou falar nada, eu não tenho nada vendendo não”, disse.
Mas a gravação não deixa dúvidas da irregularidade.

Médico: Ah, receita, né?

Produtor: Isso.

Médico: Dois miligramas por dia, três caixas. R$ 30.

As receitas a que a nossa produção teve acesso foram entregues à polícia, que vai investigar o caso. Quem vende atestado médico falso pode ser enquadrado no crime de estelionato. E, quem compra o documento falso, também comete crime.

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