No segundo dia da Conferência Estadual de Saúde de Minas Gerais, profissionais de saúde que estão participando do evento comentaram a inclusão de grupos historicamente excluídos ou marginalizados – uma proposta feita tanto na 8ª Conferência mineira como na 15ª Nacional que acontece no final do ano. Fazendo um contraponto aos desafios enfrentados pelo Sistema Nacional de Saúde, eles concordam que incluir indígenas, moradores de rua, comunidade LGBT, ciganos, entre outros, contribui para a evolução do Sistema Único de Saúde, ampliando a universalização do atendimento e a representatividade da população brasileira no SUS.
 
 
 
Grupo indígena troca ideias durante a 8ª Conferência 
 
O assistente social e sociólogo Weber Avelar Silva, por exemplo, aponta que não se trata de colocar o conhecimento tradicional contra o conhecimento científico. “Aproximar essas pessoas não necessariamente vai tornar o atendimento ou o relacionamento entre equipes profissionais e população mais complexo, mas permite humanizá-los”.
 
 
 
A farmacêutica Christiane Machado, que trabalha com práticas integrativas e complementares em uma unidade de saúde em Juiz de Fora, lembra que esses tratamentos, também conhecidos como alternativos, já constituem, no SUS, um modo de acesso a tratamentos vindos de culturas não alinhadas com o conhecimento científico.
 
 
 
A farmacêutica Crhistiane: práticas integrativas no SUS reconhecem outras culturas 
 
 “Se a gente pensar, há entre essas práticas conhecimentos de outras culturas como a oriental”, diz, referindo-se a práticas como a ioga, o reiki  ou a própria medicina chinesa. Christiane aponta também que as práticas farmacêuticas começaram com a fitoterapia e foram aperfeiçoadas pelo conhecimento científico aplicado às práticas industriais. A inclusão de novos pontos de vistas e culturas aos debates de saúde pública que se propõe no momento, segundo ela, já encontra no SUS, na convivência com novas culturas por meio das práticas integrativas.
 
 
 
A médica ginecologista e tutora do Programa Mais Médicos na prefeitura de Belo Horizonte, Rachel Rezende Campos, enfatiza:  para que a participação de novos incluídos no SUS e nos conselhos de saúde se efetive, é preciso favorecer as condições para que elas permaneçam participando.
 
 
 
“Não é só participar da Conferência. Eles precisam continuar a participar nos conselhos. Precisam ser buscados e levados e que se crie condições para que se sintam envolvidos e ocupem um lugar que é deles. Se quisermos verdadeiramente fazer essa inclusão tem que ser assim”. Na avaliação de Rachel, o movimento de renovação do SUS é vital para o Sistema que deve ser oxigenado com a participação de novos militantes e movimentos sociais. “O afastamento dos movimentos sociais enfraquece o SUS”, analisa.
 
 
 
Conquistar a confiança de quem se sente fortemente excluído, como prevê a médica, deverá ser fruto de um trabalho longo e dedicado. Alguns, como os indígenas, chegam desconfiados e pedem urgência para um atendimento de saúde que se mostra inexistente ou inadequado para suas culturas. “A saúde pública precisa dar mais apoio para os indígenas que vivem nas cidades”, reclama a cacique Anália Tuxá, de Pirapora. A cacique dos índios não aldeados de Belo Horizonte e Região Metropolitana, Marinalva, diz que sua comunidade, com cerca de 8 mil pessoas, sofre com falta de moradia, emprego e que muitos estão sendo cooptados para o tráfico de drogas. “Somos invisíveis”, lamenta.
 
 
 
A cacique regional dos índios não-aldeados de Minas Gerais, Kaun Poty, de atribuídos 65 anos (ela calcula que tenha 69) se mostra incrédula quanto à inclusão: “Vim aqui para confirmar se mudou alguma coisa, mas acho que continua tudo como sempre. Eles querem a gente para fazer pesquisa e vão embora”. Kaun Poty levou 40 anos para recuperar o título de cacique herdado do pai e tomou posse dele em cerimônia na Universidade Federal de Uberlândia em 2006. A dificuldade de obtenção do título foi devida à disputa com outros indígenas homens da tribo Guarani que não eram irmãos dela.
 
 
Kaun Poty: foi à Conferência ver se alguma coisa mudou 
 
 
“Moro do lado da Universidade há 40 anos, levei 30 para atravessar o muro e hoje tenho projeto lá dentro”, conta, assegurando que quer contribuir com seus conhecimentos tradicionais para a saúde pública se forem garantidos os direitos de patente. A cacique se queixa que a dificuldade de relacionamento com a sociedade nunca lhe permitiu ter uma carteira assinada, para ela um sonho.

A 8ª Conferência Estadual de Saúde de Minas Gerais começou ontem, 01/09, inovando no formato e insistindo, ou resistindo, no ponto mais sensível hoje para a população brasileira dependente da saúde pública – a defesa do Sistema Único de Saúde (SUS). 

 

Todos os discursos - de gente que tem a obrigação de gerir o sistema, de quem tem a obrigação de pensar sobre ele, ou de quem só pode contar com o SUS como recurso para defender a própria saúde – foram enfáticos na defesa do Sistema Único de Saúde. O tom das falas é reforçado pelo coro vigoroso da plateia de 3 mil pessoas que aplaude ou vaia, no imenso salão da Expominas, em Belo Horizonte.

 

Todos, quem está na tribuna e quem está na plateia, sente que o momento é crucial para que a sociedade se una na defesa de um dos poucos sistemas de saúde do mundo que ousa propor acesso universal para mais de 200 milhões de pessoas. Porque as ameaças ao SUS se multiplicam em projetos de lei e propostas de emenda à Constituição, em cortes de verbas e subfinanciamento que visam reverter as conquistas do povo brasileiro nos últimos 30 anos. Mas o primeiro dia da Conferência mineira de saúde mostrou que a resistência ao desmonte do SUS está presente.

 

Os sinais da resistência começaram a ser vistos na alteração do formato da Conferência : pela primeira vez, a população da cidade foi convocada a participar de um ato público, em defesa do SUS e contra a mercantilização da Saúde, na Praça da Estação, tradicional ponto de manifestações populares em Belo Horizonte. 

 

 

“Esse avanço para além do espaço fechado da conferência foi  importante”, registrou a presidente do Conselho Nacional de Saúde, Maria do Socorro de Souza. Sinal da projeção do evento em termos sociais e políticos, pela primeira vez um governador de estado esteve presente na mesa de abertura de uma Conferência Estadual de Saúde. Fernando Pimentel assegurou compromisso de governar para todos e de aplicar os 12% de receita do estado na Saúde como previsto na Constituição. “O que houve nos últimos 12 anos foi uma maquiagem dos governos do estado em relação a essa exigência constitucional”, denuncia a Secretária-Adjunta de Saúde de Minas Gerais, Alzira de Oliveira Jorge.

 

 

Sim, o momento é grave para a saúde brasileira e todos sabem. É chegada a hora de buscar mais legitimidade para o controle social. Por esta razão, o próprio secretário estadual de saúde, Fausto Pereira dos Santos, assim como o vice-presidente do Conselho Estadual de Saúde, Ederson Alves da Silva, se mostram insatisfeitos com a presidência do órgão delegada por decreto ao secretário de estado da saúde. Eles declaram na mesa de abertura a necessidade de uma lei que institua eleições para presidente do Conselho Estadual de Saúde.

 

 

Acolhendo mais movimentos

 

 

Mais mudanças na formatação da Conferência, dessa vez convidando segmentos tradicionalmente excluídos das discussões em saúde coletiva como indígenas, mulheres, comunidades remanescentes de quilombos ou integrantes do Movimento de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros (LGBT) se mostra frutífera. Foi atendendo a esse chamado que a transexual Lauranna Felgas, de Ubá, região Sul do Estado, foi ao microfone falar com o secretário de saúde. Ela pediu ao secretário que o Estado passe a realizar as cirurgias de mudança de sexo. “Estou gostando de estar aqui porque tenho a oportunidade de esclarecer o assunto da cirurgia transgênero”, disse Lauranna.

 

 

A ideia de incorporar mais gente na luta pela defesa da saúde pública é saudada pela ouvidora de saúde do Estado, Conceição Rezende, militante da causa da saúde há mais de 30 anos: “Cerca de 70% dos trabalhadores da saúde são mulheres, mas essa participação não se reflete em espaços de poder na direção dos órgãos públicos ou nos conselhos de saúde. O SUS acaba reproduzindo os preconceitos da sociedade”, observa.

 

 

O cientista político e professor da Universidade Federal de Minas Gerais, Juarez Guimarães, apontou para o acerto da proposta de convite aos segmentos sociais. Ele acompanha a luta dos sanitaristas brasileiros desde antes da criação do Sistema Único de Saúde e denomina o momento atual de retomada da reconstrução do SUS. “Com o passar dos anos, aconteceu um insulamento do SUS em relação aos movimentos sociais que lutam por direitos e por isso é bom para a saúde incorporar outros movimentos”, avaliou.

 

 

“Levar saúde à população é distribuir renda”

 

 

A presença de quem lida, dia a dia, com a busca de soluções para a saúde própria ou dos outros, na Conferência, humaniza o evento de forma comovente. É o caso do delegado por Uberlândia, representante dos usuários, Eduardo Araújo Souza, de 60 anos. Durante anos, ele vagou por médicos e hospitais e só depois de muito sofrimento descobriu estar acometido pela hanseníase.

 

 

“Achavam que era câncer e outra doenças e nada disso se confirmava”, conta, relatando o drama de quem convive com uma doença negligenciada no país. Pelo caminho da dor, como ele descreve, o representante comercial passou a defensor ferrenho do SUS e militante da causa da saúde. “Hoje minha vida tem sentido”, diz.

 

 

“Cem por cento dos meus pacientes dependem 100% do SUS para terem acesso a tratamentos de saúde”, atesta a Secretária de Saúde do município de Pai Pedro, de 6 mil habitantes, localizado na região Norte de Minas. O drama da secretária Linda Cássia Batista é buscar atendimento para tratamentos de média e alta complexidade para os pacientes, 80% deles morando na zona rural. Eles precisam deslocar cerca de 200 km até a macrorregião de Montes Claros onde disputam uma vaga com pacientes de mais 85 municípios. “Precisamos de descentralização”, apela a gestora. 

 

 

A Secretária-Adjunta de Saúde do Estado concorda, reportando à fala do secretário Fausto. Segundo Alzira Jorge, está nos planos do Estado a regionalização do SUS dentro da concepção do Governo de gerir a administração por meio de 17 territórios, 13 já criados. “Devemos fazer esses ajustes, como a microrregionalização (sugerida pela secretária de saúde de Pai Pedro). Podemos colocar mais especialidades em municípios mais próximos, embora haja procedimentos de alta complexidade que não se justificam, em razão do custo, serem instalados nas microrregiões”, explica.

 

 

A microrregionalização se mostra acertada. Há cerca de 10 anos, foram criados leitos de UTI neo-natal na cidade de Janaúba (microrregião), município próximo de Pai Pedro. Lá, a filha do conselheiro municipal, Elicarlos Carvalho, foi diagnosticada com hipotireoidismo congênito pelo teste do pezinho. Assistida pela equipe de Saúde da Família do município e monitorada por uma equipe do Núcleo de Ações e Pesquisa em Apoio Diagnóstico (Nupad) da Faculdade de Medicina da UFMG, a menina se desenvolve normalmente.

 

 

“Sem esse tratamento, a criança apresentaria um quadro de deficiência mental e baixa estatura e isso foi evitado”, comenta a coordenadora do PSF municipal e enfermeira, Gisele Conceição de Feitas. Esse tipo de evidência é o que faz a presidente do Conselho Nacional de Saúde, Maria do Socorro alertar: “os procedimentos em saúde são muito caros, levar esses procedimentos à população é fazer distribuição de renda”. 

 

 

8ª Conferência Estadual de Saúde de Minas Gerais reúne 3 mil pessoas em BH

 

  

 A presidente do Conselho Nacional de Saúde, Maria do Socorro Souza: Levar saúde à população é distribuir riqueza

 

 

Lauranna atuou como porta-voz dos transgêneros na 8ª Conferência

 

 

 

 Gisele, coordenadora do PSF, Elicarlos, do Conselho Municipal e Linda Cássia (esq para dir.), secretária de saúde de Pai Pedro - equipe defensora do SUS 

 

 

 

 Eduardo virou militante da saúde depois de se curar: "hoje minha vida tem sentido

A empresa Abbott Laboratórios do Brasil Ltda emitiu comunicado de recolhimento voluntário onde consta que as apresentações de 2mg e 4mg retard do medicamento Akineton tiveram as bulas trocadas entre si.

Com a confirmação do desvio, a Anvisa determinou a suspensão dos lotes 1006257 (Val 03/08/2018), 1006305 (Val 15/08/2018), 1006596 (Val 15/08/2018), 1006597 (Val 01/09/2018) e 1006674 ( Val 01/09/2018) do medicamento Akineton 2 mg (cloridrato de biperideno) 80 comprimidos.

Também foram suspensos os lotes 1006180 (Val 25/07/2018) e 1006304 (Val 25/07/2018) do medicamento Akineton 4 mg Retard (cloridrato de biperideno), 30 comprimidos revestidos.

Com a decisão da Agência, a empresa deve promover o recolhimento do estoque existente no mercado.

A medida tomada pela Anvisa está na Resolução 2.442/2015 publicada nesta segunda-feira (31/8) no Diário Oficial da União (DOU).

Fonte: Imprensa Anvisa

O produto está suspenso por não possuir registro, cadastro ou notificação na Anvisa.

A empresa que fabricava o Selkit, a Selolac Indústria e Comércio Artefatos Plásticos Ltda,  atuava no mercado sem Autorização de Funcionamento na Agência.

A Anvisa determinou que a empresa deve promover o recolhimento do estoque existente no mercado.

A medida tomada pela Anvisa está na Resolução 2.441/2015 publicada nesta segunda-feira (31/8) no Diário Oficial da União (DOU).

Fonte: Imprensa Anvisa

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