Por Ernesto van Peborgh* — publicado em 23/09/2014 em Carta Capital

Há 50 anos, no ápice da Guerra Fria e das tensões de possíveis explosões nucleares iminentes entre Estados Unidos e União Soviética, o Departamento de Defesa norte-americano solicitou a Paul Baran, cientista polaco-americano especializado em desenho de redes de computação, o desenvolvimento de um sistema capaz de manter a comunicação com as Forças Armadas durante o colapso de um ataque nuclear.

Com a tecnologia precária dos computadores dos anos 1960, Baran conseguiu manter a comunicação da rede, mesmo desconectando vários de seus nós. Seu estudo revelou que as redes podiam não só se manter interligadas, como também experimentar um aumento significativo de seus níveis de resiliência, inclusive com a perda de 50% de seus nós.

Na última década e a partir da aparição e do boom nas mídias sociais, a humanidade acompanhou a lógica de Baran para criar uma rede distribuída de mentes hiperconectadas, que troca ideias e conhecimentos sem pausa, e o fez de forma tão abrupta e significativa que ainda estamos tratando de compreender esses fenômenos e de nos adaptar a eles.

Como resultado, uma nova cosmologia governa nossa ordem social e essa mudança tem implicações fundamentais em nossa cultura e nas estruturas socioeconômicas. Dessa forma, é impossível o capitalismo e o corporativismo ficarem de fora do impacto da estrutura matricial.

Para entender essa mudança, é preciso compreender o capitalismo como um sistema. A partir dessa perspectiva, é possível conceber como uma troca na matriz subjacente tem impacto na sua morfologia e no seu funcionamento.

Mas o que é realmente um sistema? Define-se como sistema um complexo de elementos em interação ordenada, unidos numa forma mais ou menos estável em função de algum tipo de objetivo.

S = E x I x P é uma fórmula que nos permite definir essa interdependência. Um sistema (S) é o conjunto de elementos (E) que, mediante a sua interconexão (I), busca alcançar um propósito (P) determinado.

De acordo com essa dinâmica, qualquer mudança nos elementos produz um efeito em todo o sistema. O mesmo ocorre quando se altera a interconectividade com a qual os elementos interagem entre si. Em qualquer dos casos, uma alteração em E ou I pode gerar uma mudança no propósito do sistema, que é, definitivamente, o objetivo para o qual existe.

Na última década, a humanidade evidenciou a mudança mais dramática de toda a nossa história como espécie, consequência da interconectividade entre as pessoas e dentro de todos os sistemas humanos. Nesse curto período, mais de um terço da população mundial conseguiu acesso à internet e mais de 85% se comunica por meio de telefones celulares. Devido a essa hiperconectividade, mudamos também nossa lógica matricial, passando de uma matriz centralizada para outra distribuída.

As diferenças entre a matriz central e a distribuída provocaram impactos muito mais amplos e profundos não somente em nível comunicacional e organizacional, como também pelo potencial gerado a partir da participação entre os nós da rede.

A lógica e a estrutura da matriz distribuída coincidem com as dos sistemas mais evoluídos. Sua organização entrelaçada permite a interação e reciprocidade entre os nós sem necessidade da coordenação de um nó central. Os nós podem colaborar entre si construindo valor a partir da reciprocidade de suas relações. Desse modo, incentiva a motivação e a autonomia de seus atores, que se reúnem ao redor de interesses e causas comuns para constituir, desde a criatividade colaborativa, um novo recurso coletivo.


A grande diferença entre esses dois paradigmas é a interconectividade. Na matriz central ela é limitada, já que os fluxos de comunicação devem passar por um nó central.

Na matriz distribuída, a comunicação flui independentemente dos nós, assim como Baran comprovou em seu experimento. Mas existe algo muito mais interessante. Dentro desse “sistema”, outras propriedades são reconhecidas – inexistentes em uma matriz centralizada –, ligadas à interdependência e ao autogoverno. Surge a capacidade de se vincular com outros atores para obter dados, informação e conhecimento, processados, recombinados e expostos novamente ao coletivo para uma nova reconstrução a partir dessas contribuições. Esse processo permite o surgimento de propriedades emergentes, coletivas, do conjunto de elementos integrantes do sistema e não dos individuais. O emergente é uma propriedade nova que esse sistema adquire e seus elementos isolados não possuem. O todo é mais que a soma de seus componentes.

E o que tudo isso tem a ver com o capitalismo? Por ser um sistema aberto, o capitalismo forçosamente se vê afetado em sua lógica e função primordial.

As redes distribuídas substituem nossas matrizes dominantes que capitulam diante dessa lógica e dão lugar a novos modelos de organização, produção, consumo e distribuição. Novas formas de organização social, inovação e construção de conhecimento já fazem parte do cotidiano.

Entender é 50% da solução. Devemos agora compreender as transformações causadas por essa nova matriz e reconhecer que o futuro está conosco, para nos preparar e aproveitar essa incrível oportunidade que se nos apresenta: a de evoluir a partir de um mundo mais conectado, equitativo e sustentável.

*Ernesto van Peborgh é fundador da Viagem de Odiseo, especializada em estratégias de comunicação nas redes sociais. É engenheiro com MBA pela Universidade Harvard. Foi vice-presidente do Citicorp Equity Investments e sócio-fundador do Argentine Venture Partners, fundo de investimentos capitalizado pelo AIG Southern Cone Fund. Publicou quatro livros, o último intitulado Redes: O despertar da consciência planetária, lançado pela editora DVS no Brasil.

O número de doadores de órgãos no Brasil aumentou 89,7% nos últimos seis anos. Passou de 1.350, em 2008, para 2.562, em 2013. No mesmo período, o indicador nacional de doadores por milhão de habitantes subiu de 5,8 para 13,4, enquanto a fila de espera para transplante caiu de 64.774 mil para 37.736 mil (41,7%).


Dados divulgados hoje (24) pelo Ministério da Saúde apontam que, nos primeiros seis meses deste ano, o país realizou 11,4 mil transplantes. Desses, 6,6 mil foram cirurgias de córnea, 3,7 mil de órgãos sólidos (coração, fígado, rim, pâncreas e pulmão) e 965 de medula óssea. Em 2013, foram realizados 23.457 transplantes.


O coordenador geral do Sistema Nacional de Transplantes, Heder Murari, sinalizou que o governo deve atingir a meta de 14 doadores por milhão de habitante até o fim do ano. Lembrou que o Brasil é o país latino-americano com maior percentual de aceitação familiar para doação de órgãos. Das famílias brasileiras com situações de morte encefálica, 56% autorizaram a retirada. Na Argentina, no Uruguai e no Chile, os índices são, respectivamente, 52,8%, 52,6% e 51,1%.


Apesar dos avanços, o ministério lançou campanha na tentativa de aumentar a adesão das famílias à doação de órgãos. O objetivo é mostrar a importância da autorização para retirada de órgãos, após a confirmação do óbito. É a família que autoriza o procedimento, quando a situação do paciente é irreversível.


Durante a cerimônia, Arlita Andrade, viúva do cinegrafista da Band Santiago de Andrade, morto em fevereiro deste ano, informou que autorizou a doação dos órgãos do marido. "Apesar do meu sofrimento e da família, confirmamos a autorização assim que ele teve morte encefálica", assinalou. Acrescentou que foram doados dois rins, o fígado e as córneas do cinegrafista. "São cinco pessoas que receberam órgãos e estão vivas", comentou Arlita.

Publicitário, Paulo César Cavalcante, 58 anos, lamentou a longa espera na fila por um transplante. Após sofrer um acidente de carro e passar por uma transfusão de sangue, ele soube que havia contraído hepatite C. Esperou sete anos por um fígado. “Há quatro anos, recebi o órgão que modificou minha vida completamente. Hoje, agradeço demais às famílias do meu doador. Voltei a ser o que era. Jogo futebol, pratico jiu-jitsu e tenho um fígado novo”.

Para reforçar a campanha, o governo também desenvolveu um aplicativo que fará interface com o Facebook e notificará familiares no momento em que o usuário da rede social se declarar doador de órgãos. O internauta pode, ainda, adicionar à foto do perfil um laço verde, símbolo mundial da doação de órgãos.

Qualquer pessoa que concorde com a doação pode ser doador, desde que o procedimento não prejudique sua saúde. O doador vivo pode doar um dos rins, parte do fígado, da medula óssea ou do pulmão. No caso de doadores falecidos, é preciso constatar a morte encefálica. O ministério ressaltou que a doação de órgãos só ocorre com a autorização da família.

Fonte: Agência Brasil – Autor: Paula Laboissière

Em seu discurso na abertura do 5º Congresso Brasileiros sobre o Uso Racional de Medicamentos, Silvana Nair Leite, presidente da Escola Nacional dos farmacêuticos destacou a importância da Política Nacional de Assistência Farmacêutica e o papel do farmacêutico na promoção do uso racional do medicamento e para garantir a segurança do paciente. Leia na íntegra, abaixo.

Boa noite.

Quero cumprimentar a todos os nossos colegas profissionais de saúde que hoje atendem ao chamado para este que já é um evento obrigatório na agenda de todos os que se preocupam e se ocupam do uso dos medicamentos na sociedade. Mas quero cumprimentar, especialmente, os nossos colegas representantes do Controle Social da Saúde – conselheiros de saúde, membros de comissões e de entidades de representação da sociedade civil organizada. Sua participação nas atividades deste evento certamente é um marco para o que temos chamado de Uso Racional de Medicamentos.


Os tempos recentes, caros colegas, não nos permitem continuar pensando saúde a partir de nossos olhos enviesados pela técnica, a ciência por ela mesma, ou pelas nossas necessidades profissionais.

 

Temos sido chamados a ouvir a voz do povo. Ela é capaz de aprofundar necessárias transformações da realidade e encontrar a razão de ser da existência das profissões da área da saúde.

 

O povo brasileiro foi capaz de, com sua voz e sua luta, construir o SUS – e isso não é pouco!

 

A assistência farmacêutica, do mesmo modo, também foi entalhada com o formão da participação popular. Este ano, 2014, comemoramos os 10 anos da publicação da Política Nacional de Assistência Farmacêutica – uma política, vejam só, construída no âmbito de uma Conferência Nacional de Medicamentos e Assistência Farmacêutica, em 2003, e assinada pelo Conselho Nacional de Saúde, em 2004. Ela estabelece que assistência farmacêutica é bem mais que medicamentos nas prateleiras dos serviços de saúde. O medicamento, produto inanimado, é desprovido de qualidades ou benefícios por si só. Ele ganha valor pela ação dos profissionais que com ele promovem a cura, a prevenção, o restabelecimento, o bem estar das pessoas.

 

Temos dez anos desta política, dez anos de uma construção gigantesca de acesso a medicamentos, de criação de serviços, de desenvolvimento de tecnologias leves e duras. E é hora de avaliar: como temos andado? Em que precisamos avançar? Por onde?
Tomando esta tarefa, a Escola Nacional dos Farmacêuticos, com apoio do Ministério da Saúde, está desenvolvendo durante este ano, 15 oficinas regionais para Avaliação dos 10 anos da Política Nacional de Assistência Farmacêutica.

 

Com metodologia bem estabelecida e organização local dos sindicatos de farmacêuticos e da Fenafar, desde agosto já foram realizadas 8 oficinas e outras 7 estão programadas – creio que todos receberam a programação junto com os materiais do congresso. Cerca de 2500 pessoas serão reunidas até o fim do ano para esta tarefa. E não apenas farmacêuticos – diversos profissionais e muitos usuários engajados com a luta pelo direito à saúde estão atendendo ao chamado para esta avaliação. Com os resultados, levaremos nossa contribuição para as reflexões nas etapas da 15ª Conferencia Nacional de Saúde, em 2015.

 

A Escola Nacional dos Farmacêuticos, uma associação de profissionais engajados com a qualificação da categoria, tem esta missão: colaborar com o desenvolvimento social através da qualificação do controle social e do profissional farmacêutico.

 

Promover as condições para que o farmacêutico seja a reconhecido como um profissional de saúde, com capacidade de intervir sobre a realidade social de forma ética, critica e qualificada científica e tecnicamente, com domínio político sobre o seu meio.

 

Ao longo dos últimos anos, a Escola estabeleceu parcerias com diversas instituições para a realização de atividades de qualificação e formação, como os Simpósios Brasileiros de Assistência Farmacêutica, que já contaram com seis edições; os Encontro dos Farmacêuticos no Controle Social da Saúde e o Curso de Formação de Conselheiros de Saúde.

 

Com estas experiências, podemos dizer, senhor Ministro e meus colegas: os farmacêuticos acreditam no Brasil e o povo brasileiro acredita no Brasil.

 

Estamos totalmente engajados pela defesa dos 10% das receitas para a saúde. É a nossa Federação, através do seu presidente, o farmacêutico Ronald Ferreira dos Santos, que comanda o Movimento Saúde + 10, que tem pleno apoio popular e já conta com mais de 2,2 milhões de assinaturas e agora luta pela aprovação do projeto no Congresso Nacional.

 

Estamos falando de responsabilidade sanitária, de desmontarmos o discurso retrógrado de que há recursos suficientes para a saúde, que o único problema é de gestão – o que traz embutido a negação do direito universal à saúde.

 

E as farmácias, colegas, qual seu papel no direito social à saúde?

 

A aprovação recente da Lei 13.021, de 11 de agosto, não deixa mais dúvidas: farmácia é um estabelecimento de prestação de serviços de saúde e de assistência farmacêutica, um estabelecimento de interesse público! Ainda que a Medida Provisória 653 ,da mesma data, tenha colocado ressalvas sobre as condições de funcionamento das pequenas e microempresas, não é possível desconsiderar os avanços que representa no caminho para tornar a farmácia realmente um estabelecimento de saúde.

 

Não podemos deixar de mencionar aqui, senhor Ministro, a importância da nota, publicada pelo Ministério da Saúde no último dia 10 de setembro, reiterando o posicionamento deste ministério sobre a importância e o papel fundamental que exerce o profissional farmacêutico para o uso adequado dos medicamentos e a segurança dos usuários de medicamentos, em qualquer que seja o lugar ou a empresa em que este é atendido. Afinal, a assistência farmacêutica e a assistência do farmacêutico são direitos do cidadão brasileiro e assim precisam ser respeitados!

 

As vozes pedem por mais democracia, por respeito à cidadania, por dignidade. Pedem para ser ouvidas. Vamos prestar atenção e aprender com elas.

 

Vamos ouvir as experiências e expectativas das pessoas sobre o uso dos medicamentos, vamos entender as racionalidades e problematizar o que é racional. Vamos lembrar que a segurança do paciente começa e só é possível com financiamento adequado da saúde, com profissionais comprometidos e motivados, com gestão qualificada dos serviços, com acesso aos medicamentos e acesso à Assistência Farmacêutica, de forma a atender as necessidades de saúde do Brasil e do nosso povo.

 

Para finalizar, gostaríamos de dizer que para a Escola Nacional dos Farmacêuticos é uma grande satisfação poder colaborar com a realização do 5º Congresso Brasileiro sobre Uso Racional de Medicamentos, por sua importância para o desenvolvimento do país e sua total afinidade para com a missão da Escola.

 

Por isso, queremos agradecer na pessoa do colega Marco Aurélio e ao Departamento de Assistência Farmacêutica e especialmente à equipe incansável dos assessores da Escola Nacional dos Farmacêuticos e da Fenafar que toparam o desafio de trabalhar intensamente para permitir que este congresso se concretizasse em tempo e a contento.com isso me despeço, agradecendo a atenção de todos e afirmando que o Ministério da Saúde pode continuar contando com a parceria da nossa instituição e que o povo brasileiro pode contar com os farmacêuticos.

 

Boa noite e bom congresso.

 

Fonte: Fenafar – publicado em 23/09

Os pais têm uma oportunidade rara de influenciar o desenvolvimento dos filhos e de ajudá-los a se tornarem adultos mais saudáveis. Mas é preciso estar atento e agir rápido. Essa chance surge cedo e dura pouco. Começa na concepção e segue por apenas mil dias – os 270 da gestação mais os 730 dos dois primeiros anos de vida. Em princípio, a possibilidade de fazer uma criança que nasce com boa saúde crescer desse modo e assim permanecer por décadas exige a adoção de medidas aparentemente simples: oferecer proteção e aconchego ao bebê e alimentá-lo adequadamente. A alimentação apropriada inclui uma dieta equilibrada da mãe na gravidez, o aleitamento materno exclusivo nos seis primeiros meses de vida e, a partir daí, a amamentação acompanhada de água, sucos, chás, papinhas e alimentos sólidos ricos em proteínas, vitaminas e sais minerais, como recomenda a Organização Mundial da Saúde (OMS).


A receita não é nova, mas pode evitar problemas graves de saúde mais tarde. Experimentos com roedores indicam que a substituição do leite materno por outros alimentos – outros tipos de leite, inclusive – nessa fase do desenvolvimento altera o paladar e instala no organismo um desequilíbrio hormonal que pode durar a vida toda e favorecer o ganho de peso. Já a nutrição correta reduz o risco de desenvolver na idade adulta obesidade e doenças cardiovasculares, atestam estudos populacionais conduzidos em cinco países em desenvolvimento (Brasil, África do Sul, Guatemala, Filipinas e Índia). Ainda segundo esses trabalhos, o aleitamento exclusivo favorece o desempenho intelectual.


Por algumas décadas equipes desses países, entre elas a do epidemiologista brasileiro César Victora, avaliaram regularmente o crescimento de 10.912 crianças. Aquelas que começaram a receber outros alimentos antes dos 6 meses de idade – o que ocorreu antes do terceiro mês com 69% dos bebês da amostra brasileira – acumularam mais gordura corporal ao longo da vida. E quanto mais cedo consumiam papinhas, sucos e outros tipos de leite mais gordura concentravam, o que eleva o risco de problemas no coração e de acidente vascular cerebral, responsáveis por 30% das mortes no mundo, relataram os pesquisadores em setembro no International Journal of Epidemiology. “O que mais influenciou o acúmulo de gordura não foi a duração do aleitamento, mas a precocidade da introdução de outros alimentos na dieta da criança”, afirma Victora, professor da Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul, e da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos.


Há quase 30 anos, Victora, Fernando Barros e uma equipe de epidemiologistas acompanham periodicamente a saúde de todas as crianças nascidas em 1982, 1993 e 2004 em Pelotas, município de 330 mil habitantes no extremo sul do país. Esse seguimento de longo prazo, conhecido como coorte, levou Victora e colaboradores de outros países a rever anos atrás o padrão adequado de desenvolvimento até os 5 anos de idade e a propor uma nova curva de crescimento, reconhecida pela OMS em 2006 e adotada por pediatras de mais de 100 países.


As coortes feitas em Pelotas e em outras regiões do mundo mostraram que as crianças que só recebiam leite materno até o sexto mês de vida cresciam em ritmo diferente das que tomavam mamadeira. Bebês que só mamaram ao peito ganharam peso e ficaram mais altos mais rapidamente nos quatro primeiros meses de vida. Depois se desenvolveram mais devagar. “São crianças saudáveis, mas mais magras”, afirma Victora. Já as que receberam leite em pó e outras formulações que tentam imitar o leite humano engordaram mais rapidamente a partir do segundo semestre após o nascimento.


Uma possível explicação para o crescimento acelerado tardio é o consumo de mais calorias que o recomendado. Marina Rea, do Instituto de Saúde (IS) de São Paulo, e Ana Maria Corrêa, da Universidade Estadual de Campinas, verificaram anos atrás que as crianças que recebiam mamadeiras e outros alimentos nos primeiros meses de vida consumiam até 50% mais calorias que o ideal.


“Nunca é demais repetir: o leite materno é o único alimento de que a criança precisa nos primeiros seis meses”, diz Victora. Mais rico em açúcares e gorduras do que o leite de vaca, o leite humano contém ainda níveis adequados de proteínas e outros nutrientes para o bebê, além de mais de uma centena de compostos imunologicamente ativos.


Mesmo assim, não é fácil seguir a indicação da OMS. A participação maior das mulheres no mercado de trabalho, aliada à desinformação sobre como e por quanto tempo amamentar, contribui para que a dieta das crianças mude antes da hora. “Além disso”, conta Victora, “muitos médicos não respeitam a orientação da OMS e introduzem cedo na dieta alimentos desnecessários nessa fase da vida”.


O resultado é que a proporção de mulheres que amamentam exclusivamente ao peito por seis meses no Brasil é baixa, comparada à de outros países. Mas mais alta que a de 10 anos atrás. Hoje 51% das mães alimentam os filhos exclusivamente ao peito nos quatro primeiros meses de vida – eram 36% em 1999 – e 41% amamentam até o sexto mês, segundo levantamento do Ministério da Saúde coordenado pela pediatra Sonia Venancio, do IS. Ainda aquém do desejável, esse índice melhorou muito. Em 1974 metade das crianças recebia só leite materno por 2,5 meses. Esse tempo passou para 14 meses em 2006.

 

Leia mais no link abaixo:
http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/01/28/mil-dias-que-valem-uma-vida/

 

Fonte: Revista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, publicada originalmente em EBC.

Mais Artigos...