Seminário da Confederação Nacional dos Trabalhadores Universitários Regulamentados (CNTU), realizado nos dias 27 e 28 de agosto em São Paulo, abordou temas fundamentais para o desenvolvimento da América Latina, as oportunidades existentes no Bric's, as megaobras em estudo para a região e o papel dos trabalhadores universitários neste debate. A atividade apontou os desafios da organização sindical.
Da esq. para direita: Júnia Lélis, diretora da Regional Sudeste da Fenafar e do Sinfarmig, Murilo Pinheiro, presidente da CNTU, Maria Marusa Carlesso, diretora da Fenafar, Stanley Gacek, diretor adjunto do escritório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no Brasil e Lavínia Magalhães
Com o objetivo de traçar um panorama sobre o trabalho e organização sindical na América Latina e no Brics (bloco que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), profissionais de formação universitária do Uruguai, Argentina, Nicarágua e Peru, além do Brasil, participaram do II Seminário Internacional de Integração dos Trabalhadores Universitários. Realizado em 27 e 28 de agosto, em São Paulo, o evento foi promovido pela CNTU, por intermédio de seu Departamento de Relações Internacionais. Na ocasião também foi lançada mais uma edição da revista Brasil Inteligente.
A Federação Nacional dos Farmacêuticos, filiada à CNTU, participou do evento com a presença de vários diretores, que ressaltaram a importância da iniciativa para pensar alternativas para o desenvolvimento do Brasil e da região num cenário de crise econômica internacional.
Representaram a Fenafar no seminário Gilda Almeida, diretora de relações internacionais da federação, Cecília Motta, diretora regional Norte, Lavínia Magalhães, diretora regional Nordeste, Júnia Dark, diretora regional Sudeste, Larissa Utsch, diretora regional Centro-Oeste e Lia Almeida, diretora regional Sul. Também estiveram na atividade os diretores Maria Maruza Carlesso, Maria Soraya Pinheiro, Isabela Sobrinho, Jorge Luiz Pereira, Maria Fani Dolabela.
Gilda Almeida destacou a presença da Federação no Seminário. “Foi muito representativa a nossa presença e reforça a necessidade de se aprofundar no âmbito da categoria farmacêutica estes temas de integração, além de aproveitar estes momentos para ampliar a nossa compreensão da realidade internacional que tem implicações importantes no contexto nacional”.
O pioneirismo da CNTU ao realizar esta iniciativa, que já está na sua segunda edição, também foi ressaltado por Gilda Almeida. “O seminário foi muito bom, estamos nos aprimorando na realização de debates que dizem respeito aos trabalhadores, mas que ainda são poucos discutidos no movimento sindical. Somos uma das poucas entidades, senão a única, que abordamos o tema da integração internacional do movimento sindical. Discutir, por exemplo, a importância do canal interocêanico da Nicarágua, que pode representar uma transformação para a geopolítica e economia da América Latina – em particular para a América Central – não só pela integração entre os países, mas também para os trabalhadores. Além disso, ele é um contraponto ao canal do Panamá. Que aparentemente é do Panamá, mas que sabemos que é controlado pelos Estados Unidos. Então, os profissionais universitários debatendo sobre estes temas é muito importante, porque são assuntos que os trabalhadores universitários deveriam se envolver mais, pela contribuição que estes podem dar, especialmente as categorias que estão relacionadas diretamente com a infraestrutura”, avalia a diretora de relações internacionais da Fenafar.
Lia Almeida, diretora regional Sul da Fenafar, disse que participar do evento foi “extremamente proveitoso e importante porque ele aconteceu num momento delicado da conjuntura mundial. O seminário trouxe a reflexão sobre o trabalho, o movimento sindical, e o desenvolvimento sustentável no mundo através dos vários temas abordados pelos palestrantes. A CNTU e suas entidades filiadas mostram a relevância das ações em torno desta integração das categorias profissionais e da união dos povos como um desafio que ainda temos que conquistar. A nossa parte já estamos fazendo”, avaliou.
Larissa Utsch, diretora regional Centro-Oeste, disse que “o evento foi de suma importância para estreitar as relações internacionais e sindicais e também para fortalecer o movimento sindical e nos interar dos assuntos com relação ao Mercosul, Brics, o canal interoceânico da Nicarágua, a questão da valorização do trabalho que nos ajuda no debate sobre o crescimento global. É importante os trabalhadores se empoderamento destes assuntos”.
Fortalecer as organizações
Inaugurando as palestras do seminário, Gacek destacou: “O fortalecimento das organizações sindicais e a reivindicação de seus direitos no mundo são absolutamente imprescindíveis para a consolidação e o aprofundamento do diálogo social.”. O diretor da OIT salientou ainda que o movimento sindical, sobretudo diante da crise econômica global, tem o desafio de interferir nas políticas públicas em cada país – uma das vertentes de atuação da confederação, em especial através de proposições relacionadas na campanha “Brasil Inteligente”.
Boa parte da palestra foi dedicada à análise sobre o direito de liberdade sindical, previsto na Convenção 87 – a qual ainda não foi ratificada pelo Brasil, o que, segundo Gacek, não o isenta de respeitar seus princípios, enquanto estado-membro da OIT. O expositor salientou a bandeira da OIT de promoção do trabalho decente como “ponto de convergência de quatro de seus objetivos estratégicos: a promoção dos direitos fundamentais no trabalho, que inclui a liberdade sindical e o direito à organização, a geração de emprego, a extensão da proteção social e o fortalecimento do diálogo social.”
Este foi, na opinião da diretora regional Nordeste, Lavínia Magalhães, o painel mais importante de todo o seminário. “É fantástico conhecer a realidade dos trabalhadores universitários no Mercosul, é uma visão ampla que nos nossos sindicatos dificilmente temos. Mas o ponto forte foi a palestra de abertura sobre a importância dos trabalhadores universitários no sindicalismo internacional. É muito importante estarmos sempre nos atualizando, conhecendo as convenções do OIT que tratam sobre o tema, debatendo a questão da contribuição assistêncial”, destacou. Lavínia disse que estes eventos também são espaços de troca de informações privilegiadas. “Ficamos sabendo aqui de uma reunião que vai acontecer em Brasília entre entidades – inclusive com o MTE (Ministério do Trabalho e Emprego e a OIT – para discutir estabilidade, contribuição assistencial, só ficamos sabendo porque estivemos aqui. Então, nós não teríamos essa riqueza de informações que o Stanley [Gacek] trouxe para a gente e é importante levar isso para os nossos estados. Todo dirigente sindical tem que ter isso na ponta da língua”, alertou.
Mercosul e Brics
Abordando a importância dos profissionais no Mercosul, Leonardo Batalha Pereira, do Departamento de Relações Internacionais da Central Sindical Uruguaia PIT-CNT, defendeu uma nova formação dos trabalhadores universitários, sobretudo dos jovens e mulheres, visando a solidariedade entre os povos. Propugnou ainda pelo estreitamento do vínculo entre universidade e movimentos sociais.
Também apontando a premência de se discutir os programas de formação superior, Julio Gambina, professor do Instituto de Estudos e Formação da Central de Trabalhadores da Argentina (CTA), afirmou ser papel das categorias de nível universitário unir conhecimento profissional ao saber popular na busca de alternativas a um sistema que tem resultado em precarização das condições de vida em todo o mundo.
O protagonismo desses trabalhadores no âmbito do Brics foi outro tema em pauta. Participaram desse painel Otávio Cançado Trindade, primeiro secretário da Divisão Ibas (Índia, Brasil, África do Sul) do Brics do Ministério das Relações Exteriores; André Roberto Martin, professor do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP); e Divanilton Silva, diretor da Federação Única dos Petroleiros (FUP), que concluiu: “O sindicalismo tem que disputar um espaço nessa construção.”
Junia Dark, que participou do primeiro seminário internacional, destacou que o segundo evento foi tão bom quanto o primeiro. “Esse seminário nos dá oportunidades para sabermos mais sobre a importância do Mercosul”. Ela lembra que “durante muitos anos nós demos as costas para os países da América Latina, principalmente no período do governo neoliberal, depois retomamos esta aproximação nos governos Lula e Dilma. Mas a grande questão feita aqui é se o ingresso do Brasil dos Brics não está tirando a importância e atenção do país com relação ao Mercosul?”, questiona a partir de uma provocação feita na palestra de um professor da USP que trouxe um olhar um pouco mais crítico sobre o bloco. Júnia ainda registrou que a “integração é um sonho antigo, que vem desde Bolívar até agora, mas ela não pode ser apenas econômica tem que ser também política econômica e cultural. No seminário foi reiterado que só vamos alcançar isso com a solidariedade entre os povos”.

A diretora Júnia Lelis fala durante o evento
Megaobras
No âmbito do desenvolvimento latino-americano, tiveram destaque na programação a ferrovia bioceânica – que ligará o Centro-Oeste e Norte do País ao Peru – e o canal interoceânico da Nicarágua. Previsto no Programa de Investimentos em Logística (PIL 2), o primeiro projeto foi abordado por Gustavo Saavedra Garcia, presidente da Sociedade de Engenheiros do Peru. Na sua concepção, ao impulsionar a logística da América Latina, a bioceânica contribuirá “tanto ao desenvolvimento regional quanto mundial”. Mas ponderou que especialistas têm advertido para o risco de atrasos na entrega da obra – o projeto seria concluído em 2016 e, posteriormente, executado em cinco anos. Enfatizou ainda que o projeto de engenharia precisa vir acompanhado de plano de “educação”, para que a bioceânica não seja lugar de exploração informal de minérios. E alertou para os riscos de que a China, país de origem dos recursos que serão investidos na obra, beneficie-se social e economicamente em detrimento do Brasil e Peru
O gigante asiático também está envolvido na construção do canal da Nicarágua, que conectará o Caribe ao Pacífico. O projeto foi defendido por Fredy Franco, dirigente da Frente Nacional dos Trabalhadores daquele país, como “estratégico não só à América Latina e Caribe, mas ao mundo”. O empreendimento foi apresentado por Telémaco Talavera, porta-voz da Comissão Grande Canal Interoceânico da Nicarágua.
Cecília Mota, diretora regional Norte, ficou impressionada com o número de projetos para a região amazônica. “Este seminário nos trouxe grandes ideias internacionais e grandes projetos. Mas um em especial me preocupou, que é um projeto que vai rasgar a Amazônia saindo do Peru e passando pela nossa região. Isso trará um grande impacto na flora e fauna e pode causar uma grande invasão e ocupação de terras, podemos ter muitos problemas de impacto ambiental. Como ainda é um estudo, e não está aprovado é o caso de repensarmos. O debate sobre o canal da Nicarágua foi ótimo”, salientou.
Fonte: Redação da Fenafar com informações da CNTU
Publicado em 31/08/2015