04/09: TRABALHADORES SEM TERRA LEVAM EXEMPLO VITORIOSO DE BUSCA PELA SAÚDE PÚBLICA A 8ª CONFERÊNCIA ESTADUAL DE SAÚDE DE MINAS GERAIS

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O trabalhador brasileiro também sofre com a expansão privatista da saúde. “Nos últimos anos, sindicatos e centrais de trabalhadores passaram a defender a concessão dos convênios médicos como se eles fossem suficientes para garantir a saúde dos trabalhares, mas isso não é verdade”. A afirmação é da diretora do Sindicato Único dos Trabalhadores da Saúde de Minas Gerais (Sind-Saúde/MG) e representante dos trabalhadores no Conselho Municipal de Saúde de Vespasiano, Lionete dos Santos Pires, presente na 8ª Conferência Estadual de Saúde de Minas Gerais, que termina hoje (04/09) em Belo Horizonte. 
 
 
 
Lionete diz que a postura das entidades sindicais reflete a pressão da propaganda dos convênios sobre os trabalhadores que acreditam fazer a melhor escolha com os planos de saúde e acabam prejudicados. “A saúde do trabalhador envolve muito mais do que atendimento em caso de doença, caso que o plano de saúde pode atender, mas diz respeito ao ambiente de trabalho e até ao maquinário obsoleto que os empresários costumam importar da Europa, situação que podemos ver nas atividades de metalurgia”, exemplifica. Ela explica que o desamparo em Minas Gerais vem alimentando situações onde os acidentes e o adoecimento dos trabalhadores registram piora ao longo dos anos.
 
 
 
 Lionete: convênios não garantem saúde do trabalhador  
 
Os acidentes e mortes nas indústrias de fogos, concentradas na região de Santo Antônio do Monte, região Oeste, acontecem toda semana conforme a sindicalista, assim como as ameaças de  depressão, uso de drogas lícitas e ilícitas e o autoextermínio constituem um drama diário para os trabalhadores em saúde. O setor da saúde é um dos que mais empregam no estado sendo que só na rede da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig) são 15 mil trabalhadores.
 
 
 
Para a diretora de saúde do trabalhador do governo estadual, Marta de Freitas – representante dos gestores na Conferência, a situação para os trabalhadores mineiros é difícil, mas ela diz ver avanços. “Neste ano, em todos os fóruns promovidos pelo governo para definir ações prioritárias para as regiões do estado, foi pedida a inclusão da pauta da saúde do trabalhador e para o problema dos agrotóxicos”. Sobre as queixas de que as propostas votadas em Conferências de Saúde de outros anos não resultam em ações dos governos para implementá-las, a gestora sugere que é preciso haver monitoramento e fiscalização das propostas aprovadas. Marta considera que a tradição de luta dos movimentos sociais convidados a integrar a Conferência Estadual de Saúde neste ano pode fazer a diferença desta vez.
 
 
 
A lição que vem dos trabalhadores do campo
 
 
 
Quem luta pelo direito à terra traz consigo uma inabalável convicção nos seus direitos, especialmente se eles estão assegurados na Constituição Federal que garante a função social da propriedade rural.  A força para essa convicção persistir frente a desafios gigantescos – como o de ocupar um terreno com a família exposto a riscos de vida constantes -  está na ação coletiva e solidária. É a certeza de falar em nome de um objetivo e uma causa comum que deixa o líder geral do acampamento da Fazenda Carinhosa, de Uberlândia, José Rubens Laureano da Conceição, livre para entabular uma conversa direta e franca, encarando o interlocutor com sorriso aberto. 
 
 
 
“Fiquei encantado quando fomos convidados a participar desta Conferência (o contato foi feito pela secretaria municipal de saúde de Uberlândia). Durante a plenária que antecedeu a Conferência também fiquei encantado com a diversidade de pessoas: sem terra, pessoas da agricultura familiar, representantes dos negros, moradores de rua e de  todos os níveis culturais”, diz o trabalhador.
 
 
 
Para José Rubens, tratar da saúde pública é ver que é a vida que está em jogo 
 
 
 
A observação vem qualificada por uma sólida formação comunitária que preza o respeito pela opinião do outro o tempo todo. E também da necessidade de união da coletividade diante das ameaças de todo tipo que rondam o grupo.
 
 
 
Desde o primeiro dia de ocupação de uma área no campo, cada ação de interesse coletivo é submetida à assembleia e registrada em ata. A destinação de cada lote da terra é feita por merecimento, por pontos. Assim , quem ajuda o companheiro do outro lote em alguma dificuldade ganha ponto e os pontos vão sendo somados. As regras são rigorosas para as 56 famílias que vivem na Carinhosa, divididas em oito grupos de sete famílias, cada grupo com um líder.
 
 
 
O líder geral não tem poderes exclusivos, mas funciona como um mobilizador e integra a liderança colegiada composta por todos os líderes. E se a avaliação da coletividade é da impossibilidade de algum membro seguir no projeto, depois da ampla defesa concedida ao dissidente, ele é expulso. “Tem gente que não aceita os limites exigidos pela vida em sociedade e acha que o movimento dos sem terra ele vai poder viver sem regras”, resume José Rubens. 
 
 
 
Sobre a participação na Conferência mineira que defende a saúde pública nesses dias em Belo Horizonte , o líder dos Movimento de Libertação dos Trabalhadores Sem Terra (MLST) tem ideia clara: - é nossa vida que está em jogo. 
 
 
 
Trabalhadores sem terra conquistaram primeiro PSF do campo e da floresta de Minas Gerais  
 
 
 
Para os sem terra que lidam com a exclusão da sociedade o jogo de defender a vida é duro. Mas a marginalização intensifica o senso de sobrevivência e se uma lei ou política pública é identificada pelo grupo, é buscada sem perda de tempo e com muita garra. A representante dos trabalhadores do campo no Conselho Municipal de Saúde de Uberlândia, Cleiciane Wellingta Ferreira, também integrante do movimento dos sem terra de Uberlândia, só soube da existência do Conselho Municipal de Saúde há cerca de quatro anos, quando participava de um fórum de segurança alimentar. 
 
 
 
Cleiciane: determinação resultou em conquistas para saúde dos trabalhadores do campo de Uberlândia  
 
 
No fórum, os trabalhadores sem terra fizeram demandas relacionadas à saúde e foram informados que deviam ser buscadas no conselho de saúde. O desafio a seguir seria o assento no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Uberlândia para conseguir representação no Conselho. A candidatura foi registrada e a eleição de Cleiciane confirmada, mas impugnada pela gestão. Nova eleição realizada e a confirmação da camponesa não pode ser mais contestada.
 
 
 
“Quando a coordenação do Programa de Saúde da Família de Uberlândia anunciou, há mais de três anos, no Conselho Municipal de Saúde que todos os PSF´s seriam para a zona urbana e disse que não havia chance de instalar algum no campo, eu respondi que não aceitava e que minha exigência era de cinco, pelo menos. Que iria ver quantos eles iam implantar a partir dessa minha proposta”, conta Cleiciane. 
 
 
 
Referendada pelas comunidades de 17 assentamentos do município de Uberlândia, a trabalhadora venceu a batalha e dois PSFs atualmente estão em funcionamento na área rural da cidade, o terceiro está sendo instalado. Há pouco tempo conseguiram estabelecer um dia na semana para a coleta de material para exames, para que não seja preciso o paciente se deslocar do campo.
 
 
 
Esse exemplo de luta Cleiciane deixa para os participantes da 8ª Conferência Estadual de Saúde de Minas Gerais, que insistem na defesa da saúde pública: “Se as massas não forem para a rua, para a frente dos ministérios e do Congresso defender o Sistema Único de Saúde, o câncer da privatização só vai evoluir”, alerta. Do lado e ouvindo a conversa da companheira trabalhadora, José Rubens, da Fazenda Carinhosa, concorda: “ela me representa”.
 
 
 
Elionice Silva – Imprensa Sinfarmig