JULIANA VINES – Folha de S.Paulo - 17/09
 
Os adoçantes artificiais podem ter zero calorias, mas estão longe de serem inofensivos, de acordo com um estudo publicado hoje na revista "Nature".
 
A pesquisa relaciona o uso das substâncias com um maior risco de desenvolver intolerância à glicose –quando o organismo não produz insulina suficiente–, considerada o primeiro estágio da diabete. E termina com uma afirmação polêmica: os adoçantes podem contribuir com o aumento da epidemia de obesidade e diabete -o que, a princípio, deveriam ajudar a combater.
 
Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores do Instituto Weizmann de Ciência, em Israel, fizeram uma série de testes com ratos e dois estudos em humanos.
 
Primeiro, dividiram os ratos em grupos: parte deles tomou algum tipo de adoçante (sacarina, aspartame ou sucralose) e outra parte água ou açúcar. Aqueles que tomaram adoçante desenvolveram intolerância à glicose.
 
Depois, para tentar descobrir por que isso acontecia, estudaram os efeitos das substâncias na flora intestinal dos animais.
 
"Decidimos testar essa hipótese porque vários estudos já relacionaram alterações na microbiota intestinal com distúrbios metabólicos, como obesidade e diabete", disse Eran Segal, um dos coordenadores do estudo, durante coletiva de imprensa.
 
Segundo ele, como boa parte dos adoçantes não é digerida é comum pensar que as substâncias são inertes para o organismo.
 
"Não é bem assim. Ao atravessar o estômago, elas encontram no intestino um imenso ecossistema de bactérias, que tem um papel muito importante na nossa saúde e pode metabolizar coisas que nosso organismo não metaboliza."
 
Só a sacarina foi testada nessa etapa e, de novo, a hipótese se confirmou. Os animais que ingeriram o adoçante tiveram alterações tanto na composição quanto na função da flora intestinal.
 
"Provamos isso de vários jeitos. Demos antibióticos aos animais como uma forma de reverter os efeitos dos adoçantes e fizemos 'transplante' de microbiota e essa transferência induziu a intolerância à glicose em animais que não ingeriram a substância", disse Eran Elinav, também coordenador do trabalho.
 
Ao analisar a composição da flora dos ratos que tomaram adoçante, os pesquisadores observaram que algumas bactérias tinham proliferado, enquanto outras estavam em menor número.
 
"Não investigamos por que isso acontece, mas acreditamos que as substâncias induzam uma vantagem competitiva em certos tipos de bactéria e isso desequilibra o ecossistema. Outra possibilidade é que os adoçantes sejam tóxicos para alguns micro-organismos", acrescenta Elinav.
 
Em humanos, os estudos foram menos detalhados, mas também envolveram várias etapas. Os pesquisadores analisaram os dados de consumo de adoçante e os indicadores de saúde de 381 voluntários não diabéticos que já participavam de uma pesquisa sobre nutrição. Em 172 deles, também fizeram avaliação da composição da flora intestinal.
 
Mais uma vez, encontraram uma relação direta entre o consumo das substâncias e a presença fatores ligados à síndrome metabólica, como sobrepeso e intolerância à glicose.
 
Por último, deram a sete voluntários, por sete dias, grandes doses de sacarina e observaram tanto uma piora na tolerância à glicose quanto alteração na flora intestinal em quatro das sete pessoas.
 
CAUSA E EFEITO
 
A parte experimental do estudo é bem completa, mas a parte com humanos é fraca", afirma Cintia Cercato, endocrinologista, diretora da Abeso (associação de estudo da obesidade). Para ela, o trabalho não prova que os adoçantes causam obesidade e diabete.
 
"Os voluntários faziam parte de um estudo nutricional, já devem ser pessoas com maior índice de obesidade e diabetes. É óbvio que obesos e diabéticos usam mais adoçante. É uma ferramenta útil que ajuda essas pessoas. Mas não existe aí uma relação de causa e efeito."
 
Cercato também critica o número de voluntários no segundo teste. "Sete é muito pouco. Esse resultado precisa ser replicado antes de condenarmos ou não os adoçantes", diz.
 
O mesmo opina a endocrinologista Maria Edna de Mello, pesquisadora do Hospital das Clínicas da USP e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Segundo ela, a relação entre consumo de adoçantes e flora intestinal é uma novidade do estudo e precisa ser mais investigada.
 
As especialistas também concordam que, apesar de seguros, os adoçantes devem ser usados só por quem precisa: pessoas com diabete ou sobrepeso. "Não deve ser usado de forma preventiva. Com indicação, ele é melhor que açúcar. Mas sem indicação é desnecessário", afirma Mello.

As ameaças da terceirização - Os brasileiros estão diante de mais uma etapa da flexibilização dos mercados de trabalho, regressão dos direitos sociais
 
 
Por Luiz Gonzaga Belluzzo — publicado em Carta Capital em 17/09/2014 
 
 
O ministro do STF Luiz Fux irá julgar um caso emblemático de flexibilização de leis trabalhistas
 
 
O ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal, está prestes a julgar um agravo interposto pela empresa Cenibra. Condenada em todas as instâncias inferiores por ter contratado trabalhadores terceirizados para suas atividades-fim, a vitória da empresa pode deflagrar profundas transformações nas relações trabalhistas, O ministro Fux pretende dar “repercussão geral” à sua decisão sobre o mérito da questão.
 
 
Os brasileiros estão diante de mais uma etapa da flexibilização dos mercados de trabalho. “Flexibilização” é o codinome de “regressão dos direitos sociais”. Conquistados a duras penas, na Europa e nos Estados Unidos, pelas classes subalternas, depois de duas guerras mundiais e da Grande Depressão dos anos 30, os direitos sociais e econômicos estão prestes a sofrer as dores dos projetos de “competitividade” nascidos da intensificação da concorrência entre as grandes empresas que dominam a arena global. 
 
 
As consignas da “competitividade” são desfraldadas em todos os rincões do planeta como solução para o declínio econômico das nações, mesmo que esses projetos, em sua execução, destruam as condições de vida dos cidadãos comuns que labutam cotidianamente na busca da sua sobrevivência e de sua família.
 
 
A economia capitalista dos últimos 40 anos foi restaurada em suas formas essenciais no momento em que a força política das classes proprietárias e dominantes submeteu o Estado e o colocou como executor dos projetos da desregulamentação financeira, como fautor da flexibilização dos mercados de trabalho e garantidor dos movimentos de internacionalização da grande empresa. Entregue ao jogo entre a proteção desmedida de seus propósitos pelo Estado e as forças “naturais” que a movem na direção da concentração da riqueza e da renda, a economia capitalista falhou com grande escândalo em sua capacidade de gerar empregos, de oferecer segurança aos que ainda conseguem empregar ou de alentar os já empregados com perspectivas de melhores salários.
 
 
A dita flexibilização e seus tormentos assolam os trabalhadores da economia globalizada. O desempenho sofrível dos rendimentos dos assalariados e da maioria dos que trabalham por conta própria combinou-se com a aceleração do crescimento dos rendimentos do capital para produzir um inevitável aumento nos índices de desigualdade na distribuição funcional da renda. Desde os anos 80, as reformas propostas para os mercados de trabalho não fazem outra coisa senão aumentar a participação dos rendimentos do capital na renda agregada. Leia Piketty.
 
 
Fatores decisivos para o comportamento decepcionante dos rendimentos da maioria da população nas regiões “ricas”, particularmente nos Estados Unidos, foram, sem dúvida, a diminuição do poder dos sindicatos e a redução no número de sindicalizados, o crescimento do trabalho em tempo parcial e a título precário e a destruição dos postos de trabalho mais qualificados na indústria de transformação, sob o impacto da migração das empresas para as regiões onde prevalece uma relação mais favorável entre produtividade e salários.
 
 
No mundo desenvolvido, a flexibilização das relações trabalhistas subordinou o crescimento da renda das famílias ao aumento das horas trabalhadas, sobretudo por causa da maior participação das mulheres, das casadas em particular, no mercado de trabalho. Nos Estados Unidos, as mães de família com filhos acrescentaram, entre 1979 e 2000, 500 horas de trabalho ao total despendido pelo casal.
 
 
Em artigo publicado na revista Science & Society de julho de 2010, o economista Edward Wolff sustenta que a evolução miserável dos rendimentos das famílias americanas foi determinada pelo desempenho deplorável dos salários. Entre 1973 e 2007, os salários reais por hora de trabalho caíram 4,4%, enquanto, no período 1947-1973, o salário horário cresceu 75%. A despeito da queda dos salários, durante algum tempo a renda familiar, como dito acima, foi sustentada pelo ingresso das mulheres casadas na força de trabalho. Entre 1970 e 1988, elas aumentaram sua participação de 41% para 57%. A partir de 1989, no entanto, o ritmo caiu vertiginosamente.
 
 
As políticas ditas neoliberais não deixaram de pé sequer a ilusão de que a maior desigualdade foi compensada por uma maior mobilidade das famílias e dos indivíduos, desde os níveis mais baixos até os mais elevados da escala de renda e riqueza. Para surpresa de muitos, o estudo mostra que a mobilidade social nunca foi tão baixa no país das oportunidades.
 

Na legislação do SUS, o controle social é obrigatório: estados e municípios não podem receber os repasses orçamentários se não tiverem conselhos de Saúde em funcionamento com 50% de representantes de usuários, 25% de trabalhadores e 25% de gestores dos serviços de saúde". Esta é a tônica da reportagem de capa da edição 144 de setembro de 2014 da revista Radis, que está on-line. A reportagem intitulada Na Saúde, momento de repensar a participação discute a importância de políticas que ampliem o exercício da cidadania na construção das políticas públicas, em contraponto ao enorme peso que interesses de mercado têm em detrimento das necessidades e anseios da população. Segundo texto, da participação social resultaram, segundo o Instituto de Política Econômica Aplicada, dezenas de políticas públicas ambientais, de segurança alimentar, de proteção à criança e ao adolescente, e leis como o Estatuto do Idoso e a Lei Maria da Penha.
 
 
Entre a inovação e as antigas práticas é a matéria que reportou a análise dos resultados da pesquisa Municipalização na Saúde: inovação na gestão e democracia local no Brasil, que comparou as gestões das secretarias municipais de Saúde do país, entre os anos 1996 e 2006, com foco na governança, nas mudanças de perfil dos gestores e nos padrões de difusão de inovação das secretarias municipais de Saúde. "No SUS, grande parte das inovações sociais, assistenciais e gerenciais não ocorreram pelo processo clássico, no qual você introduz o novo, e o antigo desaparece. O melhor exemplo disso reside na dimensão gerencial, que não registrou o aperfeiçoamento esperado", diz o economista Assis Mafort Ouverney, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz) e coautor do estudo – coordenado pela sanitarista e professora da Fundação Getúlio Vargas Sonia Fleury.
 
 
A Radis conversou com a socióloga e antropóloga Maria Cecília Minayo, coordenadora científica do Centro Latino-Americano de Estudos sobre Violência e Saúde Jorge Careli (Claves), vinculado à Ensp/Fiocruz sobre a violência urbana. Na reportagem Violência: 'quanto maior a coesão, menor a coerção', Maria Cecília diz que os autores dessas brutalidades ainda acreditam, em pleno século 21, que "bandido bom é bandido morto". Ela aponta uma sociedade que também se horroriza com os atos de barbárie e está mais consciente dos problemas sociais. "A violência não aumentou, ela apenas tem aparecido mais. E a internet tanto expõe esses extremos de violência quanto alimenta grandes correntes de solidariedade."
 
 
Outra matéria em destaque, Saúde nas urnas, expressa que um estudo dos programas de governo dos candidatos à Presidência aponta omissões, fragilidades e distanciamento do clamor popular por um sistema universal e de qualidade. O tema "saúde" lidera a lista dos itens que mais afligem os eleitores, à frente de segurança pública, desemprego, educação e transportes, segundo pesquisa do Instituto Datafolha com 2.126 pessoas, realizada em 134 municípios entre os dias 6 e 10 de junho. Em junho, entidades como Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Centro Brasileiro de Estudos em Saúde (Cebes) e Associação Brasileira Rede Unida haviam divulgado a carta Por um SUS para todos os brasileiros, com 13 pontos apontando caminhos para efetivar um sistema com garantias de direitos para todos os brasileiros. No que depende dos candidatos à Presidência, aos governos estaduais e ao Congresso, a discussão não avança, avalia a presidenta da Conselho Nacional de Saúde, Maria do Socorro de Souza. "A maioria não está enfrentando as questões estruturantes para dar sustentação ao SUS e isso leva a descrédito e desmobilização", diz.
 
 
Já na matéria Mais do mesmo, a Radis reproduz relato de jornalista brasileiro que avaliou criticamente foco no caminho medicamentoso de prevenção, ausência das ciências sociais no debate e redução de recurso. Na 20ª Conferência Internacional de Aids, que ocorreu em julho na Austrália, ficou claro que o caminho medicamentoso é o que mais se vislumbra no enfrentamento à aids, entendendo-se como prevenção o uso contínuo de medicamentos se apresenta como alternativa viável para conter novos casos. "Tal medida democratizaria o acesso a medicamentos hoje restritos a quem consegue comprá-los e que seriam um elemento a mais no cardápio das opções de insumos de prevenção. De outro lado, os críticos destacam que os efeitos colaterais do uso desses medicamentos em largo espaço de tempo podem prejudicar mais o organismo, além de transmitir sensação falsa de liberalidade".
 
 
Acesse a Revista Radis em:
 
Fonte: Escola Nacional de Saúde Pública

Na legislação do SUS, o controle social é obrigatório: estados e municípios não podem receber os repasses orçamentários se não tiverem conselhos de Saúde em funcionamento com 50% de representantes de usuários, 25% de trabalhadores e 25% de gestores dos serviços de saúde". Esta é a tônica da reportagem de capa da edição 144 de setembro de 2014 da revista Radis, que está on-line. A reportagem intitulada Na Saúde, momento de repensar a participação discute a importância de políticas que ampliem o exercício da cidadania na construção das políticas públicas, em contraponto ao enorme peso que interesses de mercado têm em detrimento das necessidades e anseios da população. Segundo texto, da participação social resultaram, segundo o Instituto de Política Econômica Aplicada, dezenas de políticas públicas ambientais, de segurança alimentar, de proteção à criança e ao adolescente, e leis como o Estatuto do Idoso e a Lei Maria da Penha.

Entre a inovação e as antigas práticas é a matéria que reportou a análise dos resultados da pesquisa Municipalização na Saúde: inovação na gestão e democracia local no Brasil, que comparou as gestões das secretarias municipais de Saúde do país, entre os anos 1996 e 2006, com foco na governança, nas mudanças de perfil dos gestores e nos padrões de difusão de inovação das secretarias municipais de Saúde. "No SUS, grande parte das inovações sociais, assistenciais e gerenciais não ocorreram pelo processo clássico, no qual você introduz o novo, e o antigo desaparece. O melhor exemplo disso reside na dimensão gerencial, que não registrou o aperfeiçoamento esperado", diz o economista Assis Mafort Ouverney, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz) e coautor do estudo – coordenado pela sanitarista e professora da Fundação Getúlio Vargas Sonia Fleury.

A Radis conversou com a socióloga e antropóloga Maria Cecília Minayo, coordenadora científica do Centro Latino-Americano de Estudos sobre Violência e Saúde Jorge Careli (Claves), vinculado à Ensp/Fiocruz sobre a violência urbana. Na reportagem Violência: 'quanto maior a coesão, menor a coerção', Maria Cecília diz que os autores dessas brutalidades ainda acreditam, em pleno século 21, que "bandido bom é bandido morto". Ela aponta uma sociedade que também se horroriza com os atos de barbárie e está mais consciente dos problemas sociais. "A violência não aumentou, ela apenas tem aparecido mais. E a internet tanto expõe esses extremos de violência quanto alimenta grandes correntes de solidariedade."

Outra matéria em destaque, Saúde nas urnas, expressa que um estudo dos programas de governo dos candidatos à Presidência aponta omissões, fragilidades e distanciamento do clamor popular por um sistema universal e de qualidade. O tema "saúde" lidera a lista dos itens que mais afligem os eleitores, à frente de segurança pública, desemprego, educação e transportes, segundo pesquisa do Instituto Datafolha com 2.126 pessoas, realizada em 134 municípios entre os dias 6 e 10 de junho. Em junho, entidades como Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Centro Brasileiro de Estudos em Saúde (Cebes) e Associação Brasileira Rede Unida haviam divulgado a carta Por um SUS para todos os brasileiros, com 13 pontos apontando caminhos para efetivar um sistema com garantias de direitos para todos os brasileiros. No que depende dos candidatos à Presidência, aos governos estaduais e ao Congresso, a discussão não avança, avalia a presidenta da Conselho Nacional de Saúde, Maria do Socorro de Souza. "A maioria não está enfrentando as questões estruturantes para dar sustentação ao SUS e isso leva a descrédito e desmobilização", diz.

Já na matéria Mais do mesmo, a Radis reproduz relato de jornalista brasileiro que avaliou criticamente foco no caminho medicamentoso de prevenção, ausência das ciências sociais no debate e redução de recurso. Na 20ª Conferência Internacional de Aids, que ocorreu em julho na Austrália, ficou claro que o caminho medicamentoso é o que mais se vislumbra no enfrentamento à aids, entendendo-se como prevenção o uso contínuo de medicamentos se apresenta como alternativa viável para conter novos casos. "Tal medida democratizaria o acesso a medicamentos hoje restritos a quem consegue comprá-los e que seriam um elemento a mais no 'cardápio das opções' de insumos de prevenção. De outro lado, os críticos destacam que os efeitos colaterais do uso desses medicamentos em largo espaço de tempo podem prejudicar mais o organismo, além de transmitir sensação falsa de liberalidade".

Acesse a Revista Radis em:
http://www6.ensp.fiocruz.br/radis/revista-radis/144

Fonte: Escola Nacional de Saúde Pública

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