Paim rechaça terceirização na Saúde
“Nunca houve tanta unanimidade contra um projeto. Por isso creio que ele não passará no Senado”, disse o senador Paulo Paim (PT-RS) no encerramento da audiência pública da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado, que discutiu a terceirização na saúde.
O debate, que contou com a presença de cerca de 200 pessoas, foi solicitado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Saúde - CNTS, com apoio do Fórum Nacional da Enfermagem. Mais de 60 dirigentes da CNTS e das federações e sindicatos da base nos estados participaram da audiência.
Paulo Paim, que é relator do projeto no Senado, considera que o texto do PLC 30/2015 torna as condições de trabalho da enfermagem mais degradantes. “Sabemos que a rotina dos profissionais da enfermagem é desgastante. São profissionais que, muitas vezes, estão longe da remuneração ideal. Se o projeto que regulamenta a terceirização for aprovado do jeito que está, a tendência aponta para menores salários, maior carga horária e, sem dúvidas, precarização nas condições de trabalho”, disse.
Para o secretário-geral da CNTS e coordenador do Fórum Nacional da Enfermagem, Valdirlei Castagna, a saúde, como setor, precisa ser resguardada da terceirização. “A terceirização na saúde tem conotação muito maior, pois, trabalhamos com a vida e a categoria trabalha sob pressão e forte estresse. Atualmente os índices de afastamento dos trabalhadores por motivo de doenças do trabalho ultrapassam os 22%. Certamente, se ampliarmos a terceirização como está no PLC 30, este índice vai triplicar”.
Ainda segundo Castagna, não existe atividade-meio em saúde. “Entendemos que na saúde tudo é atividade fim desde a portaria até o atendimento médico. Tudo o que se faz numa unidade de saúde tem como objetivo o bem-estar do paciente e isto caracteriza atividade-fim. Por exemplo, a alimentação que é servida aos trabalhadores dentro de uma indústria não pode ser a mesma servida aos pacientes em uma unidade de saúde. A higienização feita no chão de uma fábrica não pode ser a mesma feita dentro de um hospital”, disse, alertando sobre o risco elevado de contaminação.
Segundo ele, as ações relativas à terceirização têm maior número de processos na justiça do trabalho. “As pessoas abrem uma empresa em busca do lucro fácil e depois somem. E quem paga pelos prejuízos são os trabalhadores”.
Segundo o vice-presidente da CNTS, João Rodrigues Filho, a segurança do paciente está ameaçada com a possibilidade de aprovação do projeto da terceirização. “Que tipo de responsabilidade tem com a saúde do país os que querem aprovar este projeto da forma que está? Atualmente no Brasil temos 35 mil unidades básicas de saúde, 33 mil equipes de saúde da família e 88 mil hospitais e clínicas. Deste total, 27% dos trabalhadores são terceirizados. A segurança da vida dos trabalhadores na saúde e dos pacientes pode estar com os dias contados”, disse.
João Rodrigues alertou para a terceirização que vem se alastrando em todos os setores, especialmente o da saúde, por meio das Organizações Sociais, da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares - EBSERH e outras instituições como a Cruz Vermelha. “Será que o governo federal e os governos dos estados e municípios não têm competência e profissionais para gerir a saúde”, questionou.
Qualidade prejudicada
A enfermeira Ivone Martini, representante do Conselho Federal de Enfermagem - Cofen, apresentou dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos - Dieese que apontam para piores condições nos postos de trabalho terceirizados. “Atualmente os 12 milhões de trabalhadores terceirizados ganham em média 24,7% a menos que os contratados, trabalham três horas a mais por semana e ficam menos tempo empregados, com uma rotatividade de quase 65%. A terceirização modifica a própria natureza do trabalho”.
No setor saúde, Martini aponta também para uma piora nos serviços prestados. “Vejo com preocupação a terceirização nos serviços de saúde. Os dados apontam para uma piora na qualidade da assistência e do atendimento. O capital será o único beneficiado com a aprovação deste projeto de lei”, disse. Segundo ela, o rebaixamento dos salários, a redução de direitos, más condições de trabalho, doenças e afastamentos são consequências da terceirização.
Também do Cofen, o enfermeiro Luciano da Silva alertou para os riscos da quarteirização, que pode interferir ainda mais na qualidade do atendimento final. “A mão de obra de um hospital é única e precisa ser qualificada. Os grandes hospitais, hoje, estão fazendo apenas a gestão dos serviços de saúde, enquanto terceirizam o atendimento nos postos, nas UPAs, onde eles não têm compromisso com a qualidade e quem sofre é o povo. O governo, os trabalhadores e os usuários têm de estar atentos para essa questão”.
Para o diretor de Assuntos Legislativos da Associação Latino-Americana de Advogados Laboristas - ALAL, Maximiliano Garcez, o PLC 30/2015 é uma grande reforma trabalhista que enfraquece os direitos dos trabalhadores. “Este é o projeto de lei do aluguel de pessoas. Na saúde teremos hospitais sem médicos, sem enfermeiros. O principal objetivo deste PL é acabar com a CLT. Depois de tantos anos de luta pelos direitos dos trabalhadores, estamos perto de voltar à estaca zero caso este projeto seja aprovado da forma que está. Existe uma máxima que diz que uma droga leva a outra. Se utilizarmos a analogia, podemos afirmar que a terceirização é uma droga que dá acesso a outras drogas como a droga da precarização, a droga do trabalho escravo e a droga da corrupção”, disse.
De acordo com o vice-presidente da Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho - Anamatra, juiz Guilherme Guimarães Feliciano, os impactos na saúde do trabalhador indicam que de cada 10 acidentes, oito ocorreram com trabalhadores terceirizados; de cada cinco acidentes fatais, quatro envolvem terceirizados; 98% das empresas terceirizaram segmentos com o intuito de reduzir custos; e apenas 2% afirmam ter terceirizado setores a fim de trazer trabalhadores especializados para dentro da empresa.
Fonte: CNTS
Publicado em 20/07/2015 / Reproduzido do site da fenafar